Chamada para Artigos - Dossiê "História e Literatura: Diálogos Possíveis"

2021-12-15

Em 1974, ano emblemático da história argentina, no qual as engrenagens sangrentas do golpe de 1976 começavam sua marcha sinistra, Jorge Luis Borges, prologava uma nova edição de Facundo de Domingo F. Sarmiento. Nas primeiras linhas do prólogo, Borges começa definindo a história a partir de Schopenhauer e James Joyce, do primeiro retira a ideia de que reconhecer a evolução e causalidade da história é como reconhecer nas nuvens as formas que ditam nossa imaginação (leões, baías, etc.); de Joyce, retira de seu Ulisses, a ideia de que a história é um pesadelo do qual quer despertar. Borges afirma então que Sarmiento havia formulado claramente a disjuntiva que é aplicada a toda a história argentina: civilização ou barbárie. Na sequência, faz uma relação direta entre a concepção de barbárie sarmentiana (indígenas e gauchos) e a nova barbárie, na qual o demagogo cumpre a função do caudilho e os gauchos se transformaram em colonos e operários. Borges está incomodado com essa “nova barbárie” que, desde a vitória peronista, tomou o centro de Buenos Aires, incentivadas pelos novos “demagogos” (Perón e o peronismo). Borges afirma ainda que, se os argentinos tivessem canonizado Facundo e não Martín Fierro de José Hernández, outra (e melhor) seria a história argentina. Uma constelação de problemas surge, no que se refere às relações entre literatura e história, a partir do prólogo de Borges. Entre elas, poderíamos destacar inclusive aquilo que antecede ao próprio prólogo, ou seja, a publicação de Facundo que, para além de sua inegável relevância para as literaturas de língua espanhola e também latino-americana, é extremamente complexo por se tratar, ao mesmo tempo, de um texto literário, histórico, biográfico, com traços sociológicos e antropológicos, além de consolidar-se como projeto político com a chegada de Sarmiento à presidência do país em 1868. Caberia lembrar ainda que o título completo do livro é Facundo o civilización y barbárie e, nesse sentido, seria oportuno pensar até que ponto Sarmiento não propõe a indiscernibilidade de tal oposição para além de sua contraposição, ao contrário da formulação borgiana. Por fim, caberia ressaltar que, para além do sério problema que se refere aos conceitos “civilização e barbárie”, que ainda assombra a contemporaneidade, Sarmiento antecipava um dos problemas da chamada Nova Narrativa Latino-Americana, a saber, a ideia de que na América Latina ficção e história são indiscerníveis. Isto é, entre a(s) ficção(ões) e a(s) lembrança(s), assim como em cada uma de nossas narrativas pessoais, construímos uma percepção própria acerca daquilo que foi a nossa história. A história de H maiúsculo da civilização é também polifônica, repleta de melodias cruzadas em nossos ouvidos, de tons e passagens que a enriquecem e/ou contradizem. Assim, compreender a história do mundo é compreender também a história de sua literatura, adentrando o espírito da arte que dele sempre fez parte. Neste espectro, que abarca a consciência acerca de nossa história através da literatura, podemos incluir não só gêneros mais óbvios, como o romance histórico, as distopias ou as narrativas de guerra, como também toda a tradição literária – afinal qualquer texto de ficção é, inevitavelmente, tanto produto histórico quanto produtor de novas possibilidades históricas. Aqui, a singularidade da narrativa literária é que ela não é administrada por nenhum poder que a determina; a voz lírica não tem fronteiras, a história que conta depende dela mesma. Desviando-nos de seus caminhos pré-concebidos, a literatura nos oferece novas vias, de onde podemos admirar diferentes horizontes; afinal, o seu mundo é plural, fragmentado, errante, descentrado: é uma exceção à narrativa hegemônica, um ponto de fuga para reorganizarmos o caos de nossa própria história. Tendo tudo isso em vista, a proposta dessa chamada é compilar diálogos interdisciplinares sobre história e literatura, pensadas no escopo de suas dimensões socioculturais e, assim, para além de uma hierarquização de práticas e saberes. Portanto, convidamos, para esse dossiê intitulado “História e Literatura: Diálogos Possíveis”, pesquisadores interessados em compartilhar suas análises de produtos e expressões artísticas e culturais levando em conta a ambientação, o contexto de produção e/ou impacto histórico a eles associados.

 

A organização do dossiê será feita pelos pesquisadores Davi Silva Gonçalves e Valdir Olivo Junior (Universidade Estadual do Centro-Oeste).

 

Período de submissão: 01 de Janeiro a 01 de Julho de 2022 pelo endereço eletrônico da revista: https://revistas2.uepg.br/index.php/tel/index

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