UM MOSAICO DE IRONIAS: PROVISÓRIOS SENTIDOS DA HISTÓRIA NAS LINHAS DE OSWALD DE ANDRADE.

Marco Aurélio de Souza, Erivan Cassiano Karvat

Resumo


Este trabalho é uma reflexão sobre as relações entre história e literatura presentes em um romance histórico específico, de nome Marco Zero, publicado por Oswald de Andrade na primeira metade da década de 1940. Inicialmente idealizado como ciclo de cinco volumes, o romance, chamado pelo autor de “muralista” em referência aos pintores muralistas mexicanos, chegou ao público apenas em seus dois primeiros títulos – A revolução melancólica, de 1943, e Chão, de 1945. Ressaltando a ideia de mito modernista trabalhada por Daniel Faria, enfatizo a noção de que foi a partir de tal mito (que estabelece aquilo que é ou não modernista em nossa literatura) que Marco Zero foi avaliado por diferentes gerações críticas, sendo possível, portanto, uma análise diferenciada, de cunho historiográfico, buscando suas particularidades e discursos próprios. Pensando com a literatura, e não tentando explicá-la ou reduzi-la, bem como discutindo brevemente o conceito de romance histórico e aquilo que o crítico literário João Alexandre Barbosa chamou de “leitura intervalar” – onde o discurso literário é visto como produtor de conhecimentos, e não como reflexo destes –, busquei perceber de que forma Oswald constrói sua narrativa – criando um contexto histórico e interpretando-o –, como trabalha com categorias de espaço e tempo e que relações estabelece entre sua variada e numerosa gama de personagens. Uma preocupação constante no trabalho de análise foi perceber a ideia de história oficial identificada pelo autor, a qual critica e tenta subverter. Oswald cria uma versão irônica e farsesca de episódios da história brasileira, e especificamente de São Paulo, jogando contrastes e gerando efeitos cômicos para subverter uma idealização do Brasil e de sua história, assim como para contar aquilo que é ignorado pela história oficial. Neste sentido, a obra oswaldiana se aproxima do conceito de romance histórico tal como entendido por Marilene Weinhardt, já que trabalha com as carências do discurso histórico hegemônico. Assim, analisando características ignoradas pela crítica literária voltada para a obra de Oswald, que comumente considerou Marco Zero como um romance falho e/ou um retrocesso criativo na carreira do escritor (quando não ignorou por completo a obra), este trabalho fornece subsídios para pensar o romance oswaldiano como matéria de reflexão histórica, atento aos diferentes usos da história feitos pelos diversos discursos que circulam na sociedade, bem como ao papel que estes exercem na criação de uma imaginação histórica nos leitores. 

Palavras-chave


História e Literatura; Oswald de Andrade; romance histórico

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